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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Bacon

Outcast 

«Falar da violência da pintura nada tem a ver com a violência da guerra. Tem a ver é com o esforço de refazer a violência da própria realidade. E a violência da realidade não é unicamente a violência simples à qual você alude ao dizer que uma rosa ou qualquer outra coisa é violenta, mas é também a violência das sugestões inerentes à própria imagem, a qual só pode ser transmitida por meio da pintura.» in David Sylvester - Interviews with Francis Bacon, Londres, Thames & Hudson, 1980, p.166.


Tinha-me proposto falar de Turner na minha última crónica. Depois, na emergência dos acontecimentos no panorama internacional, inflecti, ou melhor, a minha indignação levou-me a outro tema. Entretanto, a exposição de Francis Bacon, que esteve patente na casa de Serralves, transportou-me para a presente reflexão que, embora possa perder um pouco de sentido pela actualidade, não deixa de ser pertinente, dada a importância da obra deste artista britânico no século XX.


E, Bacon, eu, considero-o o maior pintor britânico do século passado.
Propositadamente digo, britânico, uma vez que era irlandês embora tenha vivido grande parte da sua vida em Londres.
Nascido em Dublin em 1909, e desaparecido em 1992, estudou em Cheltenham, na Dean School, transferindo-se para Londres, pouco tempo depois, sendo, então breve a sua aprendizagem académica. Optou de forma assumida por procurar por si mesmo caminhos estéticos, bem como o desenvolvimento de uma técnica da pintura independente.


Curiosamente, dois grandes nomes da pintura das Ilhas, são estrangeiros. O segundo nome é o de Paula Rego. Esta afirmação tem apenas a importância que tem, num contexto de modernidade, em que os artistas «parisienses» foram capazes de revirar do avesso os destinos da arte europeia.
E, curiosamente, na referência de Paula Rego, surge, pelo menos, uma componente, a meu ver, que aproxima estes dois artistas e que tem a ver com a natureza narrativa de ambos os discursos pictóricos.
Francis Bacon pretende sempre revelar um episódio da realidade. E, embora tenha sido muitas vezes considerado como expressionista, sempre recusou o rótulo, uma vez que, a sua pintura «não exprimia ideias nem sentimentos», mas reflectia a realidade crua, isto é, violenta e brutal.
O artista, sem ignorar, contudo várias teses da pintura de inícios do século XX, paulatinamente, no seu estúdio, analisa elementos visuais, conjuga-os, refunde-os num processo muito próprio...e o resultado é uma pintura forte, de tensão cromática, veiculando formas, por vezes, estranhas que não são alheias às teses picassianas do cubismo...são planos simultâneos, simulando uma quarta dimensão – a conquista do tempo, pela simultaneidade de planos, a tal função particularmente narrativa.
Serviu-se de fotografias, fotogramas, recortes de jornais...e, como objecto de culto, omnipresente, Sergei Eisensetein, fundamental no «catecismo» do expressionismo. E que dizer de uma técnica de pintura «a la prima», de sucessivas camadas de óleo aplicadas num suporte fora de usual, pintando sobre tela do avesso?...
Bacon, como disse pretende demarcar-se desta denotação. De facto, pouco importa a designação. No entanto, vários aspectos da sua polémica obra, aí remetem: E, se muitas vezes, se procure separar o homem do artista, no caso, penso que o cotejo de ambos nos ajudará no entendimento da obra.
Francis Bacon, consumidor compulsivo de álcool, boémio, jogador nos casinos da Londres marginal, homossexual, que se assume com coragem, através de uma pintura violenta, que muita gente recusa a priori, que brota das suas vivências quotidianas.


Será caso para nos interrogarmos se de facto o poeta é mesmo um fingidor?...


escrevinhado há uns anos num jornal desaparecido...
   




  




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