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sábado, 8 de março de 2014

Morrer de Amor - Poema de Maria Teresa Horta

Morrer de Amor

 Morrer de amor 
 ao pé da tua boca 

 Desfalecer 
 à pele 
 do sorriso 

Sufocar de prazer
com o teu corpo 

Trocar tudo por ti
se for preciso 

 Maria Teresa Horta, in “Destino”

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Desaparecido


 Desaparecido 

 Sempre que leio nos jornais: 
"De casa de seus pais desapareceu. . . " 
 Embora sejam outros os sinais, 
Suponho sempre que sou eu. 

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais, 
Do meu veleiro, que ora os outros movem, 
Pudesse ser o próprio arrais. 

Eu, que tentasse errado norte; 
Vencido, embora, por contrário vento, 
Mas desprezasse, consciente e forte, 
O porto de arrependimento. 

Eu, que pudesse, enfim, ser meu — Livre o instinto, em vez de coagido, 
"De casa de seus pais desapareceu...
" Eu, o feliz desaparecido 

 Carlos Queirós ( covém dizer ao  (c)rato que não é o treinador da bola)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Na passagem de um ano...

Grandes São os Desertos, e Tudo é Deserto 











Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

Álvaro de Campos, in "Poemas"

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Não sei. Falta-me um sentido, um tacto.Álvaro de Campos

Não sei. Falta-me um sentido, um tacto 
Não sei. Falta-me um sentido, um tacto Para a vida, para o amor, para a glória... 
Para que serve qualquer história, Ou qualquer facto? 
 Estou só, só como ninguém ainda esteve, Oco dentro de mim, sem depois nem antes. 
 Parece que passam sem ver-me os instantes,
 Mas passam sem que o seu passo seja leve. 
Começo a ler, mas cansa-me o que inda não li. 
 Quero pensar, mas dói-me o que irei concluir. 
 O sonho pesa-me antes de o ter. Sentir 
É tudo uma coisa como qualquer coisa que já vi. 
Não ser nada, ser uma figura de romance, 
Sem vida, sem morte material, uma ideia, 
 Qualquer coisa que nada tornasse útil ou feia,
 Uma sombra num chão irreal, um sonho num transe. 

 Álvaro de Campos (1917)