quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Não sei. Falta-me um sentido, um tacto.Álvaro de Campos

Não sei. Falta-me um sentido, um tacto 
Não sei. Falta-me um sentido, um tacto Para a vida, para o amor, para a glória... 
Para que serve qualquer história, Ou qualquer facto? 
 Estou só, só como ninguém ainda esteve, Oco dentro de mim, sem depois nem antes. 
 Parece que passam sem ver-me os instantes,
 Mas passam sem que o seu passo seja leve. 
Começo a ler, mas cansa-me o que inda não li. 
 Quero pensar, mas dói-me o que irei concluir. 
 O sonho pesa-me antes de o ter. Sentir 
É tudo uma coisa como qualquer coisa que já vi. 
Não ser nada, ser uma figura de romance, 
Sem vida, sem morte material, uma ideia, 
 Qualquer coisa que nada tornasse útil ou feia,
 Uma sombra num chão irreal, um sonho num transe. 

 Álvaro de Campos (1917)

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Desaparecido...

Desaparecido



Sempre que leio nos jornais:
«De casa de seus pais desapar’ceu...»
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem,
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas desprezasse, consciente e forte,
O porto do arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!
- Livre o instinto, em vez de coagido.
«De casa de seus pais desapar’ceu...»
Eu, o feliz desaparecido!

Carlos Queirós